Quando a reforma estatutária trocou “Conselho de Administração” por “presidente executivo”, em agosto, muita gente comemorou achando que o clube tinha virado a página.

Só que a página continuava escrita pela mesma mão. Aroldo Guidão Filho foi aclamado presidente do Conselho de Administração em 15 de dezembro de 2023, dias depois do rebaixamento à Série B, e seguiu no comando até a semana passada, quase três anos depois. A mudança de nome no estatuto só deu rótulo novo pra quem já estava lá.

E foi sob esse comando que o Goiás trocou um superávit recorde de R$ 124 milhões, em 2023, por um déficit recorde de R$ 98,1 milhões, em 2025, depois de apostar num elenco caro pra voltar rápido à Série A. A aposta não deu certo, o time não subiu, e a conta sobrou pro departamento financeiro e pro bolso do jogador.

Em junho, o Conselho Deliberativo até aprovou essas contas, mas com ressalvas, por apenas 57 votos a 34, um placar apertado que já escancarava o tamanho da desconfiança interna. E 2026 não trouxe alívio algum: dos oito balancetes divulgados até agora, sete fecharam no vermelho, com fevereiro como única exceção, incluindo déficit de R$ 2,2 milhões em julho e R$ 4,2 milhões em agosto. Pra tentar segurar as pontas, o clube precisou recorrer a empréstimo atrás de empréstimo, uma operação de cerca de R$ 25 milhões contratada ainda no fim de 2025, seguida de outra, de aproximadamente R$ 20 milhões, menos de um ano depois. Viver de empréstimo virou rotina, não exceção.

E tem mais. Segundo apurou esta coluna, Aroldo Guidão, desde que foi transformado no cargo máximo, nunca compareceu, nenhum dia sequer, às dependências do Goiás em dias sem partida oficial. Presidente que não aparece não conhece gente, não sente o clima do vestiário, não vê o problema de perto, só recebe relatório. Dirigir um clube de futebol à distância, sem nunca pisar na Serrinha, explica muita coisa do que veio a seguir, e do que vinha acontecendo e todos sabem.

E se alguma cena resume o tamanho dessa distância entre quem administrava e quem vivia o clube no dia a dia, foi a entrevista do técnico Mozart depois da vitória sobre o Athletic-MG. Perguntado sobre a saída de Guidão, respondeu sem rodeio: “Eu nem sabia dessa notícia. Eu, particularmente, nem conheço ele. Eu prefiro nem comentar.”

Um técnico que comanda o time todo santo dia, que cobra resultado, que segura vestiário em meio a atraso de salário, e nunca sequer cruzou uma palavra com quem presidia o clube. Mais do que falha de comunicação, isso é retrato de uma gestão que preferiu aparecer pouco e explicar menos ainda.

Não é hora de alongar o debate sobre o que ficou pra trás. É hora de olhar pro que vem agora.

Assumiu o comando Munir Calixto Júnior, até então vice-presidente jurídico e conselheiro de longa data do clube. Um nome que talvez muitos esmeraldinos ainda não conheçam de capa de jornal, mas que carrega algo raro em cargo de presidência, é torcedor de verdade. Daqueles que estão na arquibancada, que sentem o jogo, que vivem o clube antes de administrar o clube. Não é pouca coisa, em tempos como esse, ter à frente alguém que entende na pele o que é torcer pelo Goiás.

Enquanto isso, dentro de campo, o time seguiu fazendo o que sabe fazer. Vitória suada sobre o Athletic-MG, de virada, com gol nos acréscimos, exatamente o tipo de resultado que exige entrega quando tudo ao redor é instabilidade.

O Goiás chegou aos 45 pontos, está na 11ª colocação, longe do sonho de acesso, isso é fato, e seria hipocrisia fingir o contrário. Mas também está livre, com conforto, de qualquer risco de queda. Numa temporada com esse tanto de solavanco fora de campo, terminar o ano sem sustar o coração do torcedor por rebaixamento já é, por si só, uma vitória silenciosa.

O Goiás está em frangalhos, sim. Mas frangalho também é ponto de partida. É o momento exato em que se junta cada caco, um por um, e se decide reconstruir diferente. Uma nova era não nasce quando tudo está bem. Nasce justamente quando tudo desmorona e alguém decide levantar de novo, com mais cuidado, com mais responsabilidade, com mais amor pelo escudo do que pelo poder do cargo.

Fica a torcida sincera, a esperança que todo esmeraldino carrega mesmo nos momentos mais difíceis. Que essa nova era seja, de fato, o começo da recuperação. Que em dezembro, quando a eleição chegar, o clube escolha continuar nesse caminho de gente que ama o Goiás antes de qualquer coisa. O time entrega em campo. Que a gestão, finalmente, aprenda a entregar também.