Durante anos, diversos dirigentes de clubes afirmaram que a "Lei Pelé" destruiu os clubes do futebol brasileiro.
Hoje, porém, é necessário fazer uma análise mais ampla desse cenário.
A referida lei, segundo seu idealizador, representava um marco para o futebol brasileiro, pois libertava os jogadores de uma situação que muitos consideravam próxima da escravidão moderna, permitindo-lhes mudar de clube ao término do contrato sem que o novo clube precisasse indenizar o anterior.
A proposta era libertar os jogadores. Contudo, passadas mais de duas décadas, percebe-se que, em muitos casos, apenas houve a substituição do "dono" do atleta. Lamentavelmente, muitos jogadores passaram a ter suas carreiras controladas por empresários.
Não há qualquer ilegalidade ou imoralidade nisso. Em diversos segmentos, inclusive no esporte, é natural que atletas contem com profissionais responsáveis pela gestão de suas carreiras. O problema começa quando essa gestão deixa de ser estratégica e passa a ser exclusivamente financeira.
Temos visto empresários destruindo carreiras porque não elaboram um verdadeiro planejamento profissional para seus representados. Em vez disso, buscam apenas o lucro imediato.
Muitos desses empresários exploram o aspecto emocional dos atletas e de seus familiares, vendendo ilusões. Colocam o jogador contra o próprio clube, tentando forçar uma transferência antes do término do contrato, independentemente da existência de vínculo vigente.
Para alcançar esse objetivo, oferecem seus atletas ao mercado como se fossem mercadorias em liquidação. Utilizam a imprensa para divulgar supostos interesses de clubes, muitas vezes sem que exista qualquer proposta concreta.
Quando agem dessa forma, pensam apenas em quanto poderão lucrar. Esquecem que alimentam falsas expectativas no atleta, geram desgastes na relação com o clube atual e, muitas vezes, reduzem o próprio valor de mercado do jogador. Afinal, quando um atleta é oferecido indiscriminadamente a diversos clubes, passa a transmitir ao mercado a impressão de que seu clube deseja negociá-lo a qualquer custo. O resultado costuma ser a apresentação de propostas muito inferiores ao seu real valor ou, pior ainda, o surgimento de desconfiança por parte dos potenciais interessados.
Recentemente, um determinado atleta, influenciado por conselhos pouco sensatos de pessoas próximas, foi convencido de que havia chegado o momento de mudar de clube. Procurou seu empresário, que, após analisar sua carreira, manifestou entendimento contrário. Considerava mais prudente aguardar o momento adequado para uma transferência.
Inconformado, o jogador rescindiu o contrato com esse empresário e contratou outro, que rapidamente lhe disse exatamente o que ele desejava ouvir: que acreditava em seu potencial e que era hora de deixar o clube atual, considerado pequeno para o nível do atleta.
O novo empresário passou, então, a oferecer o jogador a diversos clubes. Considerando a escassez de atletas para aquela posição, imaginava encontrar rapidamente interessados na aquisição definitiva dos direitos econômicos.
A realidade, contudo, foi bastante diferente.
Nenhum clube demonstrou interesse em comprar os direitos econômicos do atleta. As propostas limitavam-se a empréstimos, com opção de compra futura condicionada ao cumprimento de metas esportivas, normalmente por valores muito inferiores ao valor de mercado do jogador.
Para ilustrar essa situação, imagine que você possua um automóvel avaliado em R$ 10.000.000,00. Um interessado afirma querer comprá-lo, mas propõe primeiro utilizá-lo por um longo período, comprometendo-se apenas a pagar combustível, IPVA e eventuais multas. Ao final desse período, caso o veículo "prove" toda a sua qualidade, ele se dispõe a comprá-lo por apenas 10% do valor da tabela FIPE.
É evidente que nenhum proprietário aceitaria uma proposta dessa natureza.
No futebol, entretanto, muitos empresários apresentam esse tipo de operação como um excelente negócio. Excelente para quem?
Certamente não para o clube detentor dos direitos do atleta, que perde imediatamente o jogador, cede-o para um verdadeiro período de testes e ainda aceita uma opção de compra por valor extremamente reduzido.
Também não é, necessariamente, um excelente negócio para o atleta, que chega ao novo clube pressionado a provar seu valor antes mesmo de ser efetivamente contratado em definitivo. Se o clube realmente acreditasse em seu potencial, faria uma proposta de aquisição desde o início.
Quem praticamente nunca sai perdendo é o empresário. Se a transferência ocorrer, recebe comissão pela negociação. Em muitos casos, também passa a receber um percentual sobre o novo salário do atleta. Independentemente de o negócio ter sido vantajoso para o jogador ou para o clube de origem, sua remuneração está garantida.
Em suma, durante muito tempo afirmou-se que a Lei Pelé prejudicou os clubes de futebol. Talvez isso seja verdade em diversos aspectos. Entretanto, olhando o cenário atual, é possível concluir que ela também produziu efeitos negativos justamente para aqueles que pretendia beneficiar: os próprios jogadores, que, em inúmeros casos, trocaram uma relação de dependência institucional por outra, muitas vezes ainda mais nociva, baseada em interesses exclusivamente econômicos.
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